Estrada
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Todos temos problemas.

Num universo solitário, existe um campo infinito e frio, que era atravessado por uma estrada. A estrada era como uma cicatriz gigante que dividia o campo em duas partes vastas e intermináveis de relva amarelada, alta e quebradiça que a rodeavam. Mas esta estrada tinha uma particularidade: um único ruído conseguia ser ouvido, que rompia a imensidão de silêncio quase ensurdecedor.

Um homem esguio caminhava, o chapéu bem ajustado, o casaco pesado sobre os ombros e uma pasta a pender do seu braço direito. O mundo parecia morto e a sua paleta de cores era inquietante e estranha: o verde-escuro do traje do homem, o amarelo desbotado da relva e o cinzento, quase negro, da estrada e do céu, num mundo sombrio e nublado. E, nesse universo de cores limitadas, o homem não falava, não gritava, e os seus movimentos eram os únicos barulhos audíveis — os sapatos a bater na pedra desgastada, ou os conteúdos metálicos da sua pasta que sacudiam de acordo com os seus passos.

A imensidão preenchida pelo vazio era tanta, que o próprio homem conseguia ouvir os seus batimentos cardíacos, e quase que cheirar qualquer mínimo cheiro espalhado pela distância, mas apesar das adversidades, ele estava com o foco na estrada. Cada passo ecoava num espaço onde o som parecia não saber para onde se deslocar. O cheiro de mofo do casaco misturava-se com o frescor do oxigênio, o que tornava o ar pesado. O homem continuava a caminhar sem hesitar, com passos firmes e resolutos. Os seus olhos estavam fixos no horizonte, como se atravessassem a névoa que cobria o “fim” da estrada, quase de forma que ele fosse capaz de ver além dela. Uma certeza ele tinha: chegaria ao fim da estrada.

No meio da caminhada, onde só uma figura divina poderia saber a distância percorrida pelo homem, ele sentiu um pequeno sopro, de forma que uma carícia fria atingisse o seu casaco: era vento. Um sinal teria sido dado ao homem. O mundo ao seu redor parecia suspirar no silêncio. A única interrupção era o som dos seus próprios passos, que ecoavam sobre a pedra. O vento trouxe consigo um leve arrepio, uma sensação de que a natureza ao seu redor estava a começar a manifestar-se, como se a estrada estivesse viva e observando-o.

Ao longo da caminhada, agora acompanhada pelo leve vento frio, as coisas começaram gradualmente a mudar. O homem, com os olhos fixos no horizonte, começou a perceber, lentamente, que o terreno à sua volta não estava mais vazio. Pedras pequenas, grandes e com diferentes formatos, distribuídas de forma uniforme, foram emergindo da névoa, como se o mundo estivesse a revelar-se, tomando uma nova forma. Contudo, a discrepância não foi suficiente para fazer o homem perder a concentração que impôs em seu objetivo. O homem continua a caminhar.

O vento fica mais forte, é suficiente para se tornar num incómodo para o homem, não era mais um simples sopro como era no passado, era uma irritante brisa que parecia perturbar o homem. Isso se permaneceu por bastante tempo, o homem caminhava ao redor de diversas pedras e pedregulhos, ainda em posições uniformes, mas que estavam extremamente longe de sequer preencher metade da imensidão do campo infinito que dissipava um cheiro húmido, será que as pedras eram apenas um aviso de que algo diferente estaria por vir?

De repente, o vento ficou tão forte que parecia empurrá-lo para trás, como se o mundo estivesse contra ele. O homem estava com dificuldades para se movimentar e, num movimento de desespero, ele começou a correr. O homem não estava disposto a deixar-se ir tão facilmente. O vento era uma mera complicação que teria sido criada contra ele, acreditando ser um mero obstáculo de uma figura divina. Ele estava tão determinado em combater o vento que todos os seus sentidos olfativos haviam ido embora, ele não sentia o cheiro de mais nada, não pensava em mais nada. A complicação do vento era a única coisa na cabeça do persistente homem. Ele correu sem parar, até que, inevitavelmente, o chapéu caiu e desapareceu na névoa ao seu redor.

O homem para. A expressão séria do seu rosto permanece. Será que este é o fim? Ele senta-se na calçada, pousa a sua pasta no chão e abre-a, revelando uma caneta e uma sopa de verduras enlatada, com um grande autocolante, com texto escrito com uma esferográfica vermelha que mais parecia ter sido feito à pressa: dizia “ENVENENADO”.

O homem tira um pedaço de papel amarrotado do bolso traseiro das suas calças e, enquanto a forte ventania dificulta todo o processo, ele agarra na caneta da sua pasta e escreve um denso texto relatando a sua vida.

Após a escrita do texto, o homem pousou a caneta na pasta e atirou o papel para o ar, que rapidamente acaba por desvanecer na névoa enquanto é levado pela forte tempestade. Em seguida, ele agarra a sopa de verduras enlatada que estava armazenada em sua pasta, abre-a e bebe-a. Ele sabia que se condenava, e aceitava o destino que havia escolhido. Mas o homem desfruta da sopa envenenada de uma forma desconcertante, parecia que já não comia há mais de 600 anos, o líquido quente entrou em contacto com a sua língua que, numa brisa tão desconfortável como aquelas, relaxou o homem instantaneamente. O sabor das verduras era intenso, com destaque para a cenoura, a batata e a cebola. O sal dava um contraste agradável à sopa. Aquela com certeza estava prestes a ser a melhor refeição que ele alguma vez iria ter.

A sensação de cansaço começou a envolver-lhe o corpo, como uma mão invisível que o apertava. As suas pernas, antes firmes, agora pareciam pesadas e sem vida. O ar tornava-se mais denso, e o seu peito apertava como se a própria estrada tentasse sufocá-lo. Mas ele já não se importava. As suas mãos, que ainda seguravam o copo com o líquido envenenado, tremeram levemente, mas ele não a largou. O fim da estrada já não importava.

A sopa, agora fria, não lhe aquecia. Cada gole parecia um adeus, um último suspiro que o aproximava ainda mais do fim. Ele sentia o veneno a correr-lhe nas veias, cada gota a consumir-lhe lentamente, como se a própria vida estivesse a escoar-se dele. Não havia mais força para continuar. Ele sabia que não iria mais levantar-se. O horizonte, que antes parecia distante, agora parecia uma ilusão. O caminho que percorreu já não fazia sentido. Ele estava ali, sozinho, à espera do fim.

O vento, que antes o irritava, agora parecia sussurrar-lhe palavras que ele não queria ouvir. Mas o homem já não tinha forças para reagir. O veneno e o silêncio tornaram-se os seus únicos companheiros.

Ele fechou os olhos por um momento, permitindo que o peso da sua decisão o envolvesse. Já não havia luta. Apenas a aceitação da inevitabilidade. A estrada, o campo, o vazio e o vento ao seu redor desapareceram por completo. O fim estava próximo e os seus esforços para se expressar foram em vão, mas pelo menos a ventania havia parado e a sopa tinha sido de facto, a mais saborosa que ele havia comido. E, assim, ele permaneceu, sentado, à espera do que viria a seguir, sem mais forças para resistir.

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