Icarus 0
Part1

Em muito tempo atrás que agora está esquecido,
um tempo antes dos humanos,
um tempo onde o preto e o branco eram um só,
eternidades antes dos opostos,
apenas existiam três.

Crianças que viviam em um mundo azul,
naïf de seus destinos no futuro,
uma irmã e seu irmão,
e um conjunto de amantes desafortunados.

Seus nomes foram esquecidos com o tempo,
seus destinos foram selados,
mas neste tempo de pura felicidade e ignorância
era Claudius, Augustus, e Gudang.

Claudius era um guerreiro feroz,
seu cavaleiro brilhando, armadura escarlate.
Até pelo que ele sabia, eles eram irmãos.

Augustus era um anjo com uma beleza incompreensível.
Ele brilhou branco com sua glória,
suas vestimentas eram feitas da melhor seda que existe,
e seu cabelo era comprido e dourado.

Gudang era sua esposa, ela era uma garota jovem.
Sempre otimista e feliz.
Sua vida não poderia ser melhor.

A vida deles parecia perfeita.
Por eternidades eles dançaram e brincaram no eterno oceano,
eles estavam felizes e contentes, apenas tendo eles mesmos, e ninguém mais.

Um dia, algo mudou.
A Garota não estava mais contente.
O Guerreiro tentou animá-la com sua fita dançando, mas ele não conseguiu.
O Anjo tentou animá-la com sua imaginação, mas ele não conseguiu.

“O que aconteceu, minha querida irmã?” O Guerreiro perguntou.
A Garota não estava mais feliz com seu oceano eterno.
A Garota não estava mais feliz com apenas dois amigos para conversar.
A Garota não estava mais satisfeita.

O Guerreiro teve uma ideia.
Ele usou suas fitas de glória para costurar e tecer o oceano sem forma em um brinquedo.
Uma boneca que ela nunca conseguiria perder.
Então, ele fez um copo e uma bebida:
Vinho fino em um copo de vidro, com um gosto nunca visto antes.

Ela estava feliz novamente, e O Guerreiro estava satisfeito com seu trabalho.
Por eternidades ele criou brinquedos atrás de brinquedos para ela brincar.
Um dia, ela ficou triste de novo.

O Cavaleiro tentou costurar um novo brinquedo para ela, mas não funcionou.
Ela queria amigos para brincar.
Ela queria criaturas com vida.

O Anjo veio e começou a pintar e desenhar vida e alegria.
Sangue e carne saltaram de suas asas e formaram um amigo.
Um ser com a cara mais bonita, rivalizado apenas pelo próprio Augusto, estava diante deles.

Por eternidades eles dançaram, formando carne, osso e sangue.
Amigos atrás de amigos surgiram de sua asa e mão.
Ela ficou feliz de novo.

Em outro dia, veio quando ela parou de ficar feliz.
O Cavaleiro teceu mais brinquedos, O Anjo costurou mais amigo.
Estava faltando algo.
Ela finalmente se levantou e fez sua própria fábrica.

Realidade após realidade foram feitos da mão da Garota
Escritórios, ciades, hoteis, lugares com canos de vinho;
ela criou isso tudo.
Mundo após mundo flutuando no oceano infinito.

Ela colocou seus amigos e brinquedos em cada um dos quartos,
para que não importasse aonde ela iria, eles sempre estarão lá.
Era perfeito.
Os três viveram em harmonia, observando suas terras perfeitas.

Mas em breve, tudo isso iria mudar.

As criaturas começaram a se multiplicar, vivendo nas realidades com alegria pura.
Mas um dia, Gudang parou de brincar apenas por um momento, admirando seus trabalhos
Ela nadou pelo oceano, observando suas criações vivendo uma vida perfeita.

Ela viajou e viajou até chegar em um ponto absoluto.
Um lugar onde todas as realidades se juntaram em um pequeno ponto
Um nó que precisava se desamarrar.
Um buraco em um cobertor que precisava ser costurado.
Parece que seu trabalho ainda não estava pronto.

Ela virou para seu irmão e seu amor,
ela se perguntava se ela deveria contar pra eles do buraco entre as realidades.
Estava quebrado e abaixo da compreensão humana.
Algo que, se não tiver alguém vigiando, poderia ser aberto ainda mais.
Se o remendo fosse quebrado, poderia ser catastrófico.

Essa era a sua chance.
Ela poderia criar o céu para tampar o buraco.
Ela poderia criar o paraíso para eles viverem.
Seu próprio mundo pessoal para concertar a lágrima na sua criação perfeita.

Ela construiu seu próprio mundo, formando um lugar com perfeição geométrica.
Cada mundo tinha imperfeições ali e aqui, coisas que não faziam sentido, criaturas que não pertenciam ali.
Isso, no entanto, era absoluto.
Esse era a costura na realidade.
Até passou a glória e lindeza do Anjo.

Era seu único lugar onde um céu perfeito poderia ser criado, e era o dela.
Ela entrou em seu paraíso, entrando com felicidade absoluta.
A perfeita quantidade de criaturas vivia em harmonia.
A perfeita quantidade de brinquedos estava posicionada perfeitamente onde eles deveriam estar.
Tudo estava lá tirando seu irmão e marido.

Ela correu á eles com alegria, mostrando-os o céu.
Ela mostrou a eles que é absoluto, falando como ela consertou o buraco.
Mas eles não estavam felizes.
Não era perfeito para eles, apenas para ela.

“Você teve sua única oportunidade de criar o céu, e você o fez apenas para si mesma?”
Ele parou de sorrir, realizando o que aconteceu.

“Mas eu precisava consertar o buraco.
Olhe para isso,
É lindo!
Absoluto!
Perfeito!”

“Isso poderia ser nosso céu pessoal, não apenas o seu.
Nós não pertencemos aqui. Isso foi feito perfeitamente apenas para você.
Nós quebramos a harmonia desse lugar porque esse lugar foi feito apenas pra você.
Nossa existência interrompe o fluxo simétrico do lugar.
Como você pode?”
O Guerreiro começou a chorar pela primeira vez na sua existência eterna.

O Anjo ficou do lado de sua esposa.
“E isso é lá o jeito de falar com sua irmã?
Você não ouviu sobre a catástrofe que poderia ter acontecido se ela não tivesse feito isso?
Nossos mundos poderiam ser destruídos!
Como você ousa respondê-la assim?!"

“Seu imbecil!” O Guerreiro rugiu.
“Você sempre está tentando ficar acima de mim, me fazendo parecer o menor!
Sempre fazendo você o mais elevado!
Sempre disputando a compaixão e atenção da minha irmã!
Se você quiser brigar por ela, então chega dessa brincadeira de criança.
Se é luta que você quer, é luta que você terá.”

Claudius, dominado pelo desgosto, traição e raiva, balançou suas fitas para ele.
Uma vez belas e elegantes, elas se dissolveram em lâminas e espadas de batalha.
Ele bloqueou e lutou de volta, tentando não machuca-lo.
Eles oscilaram e cortaram e socaram e gritaram por anos.
Cego pela raiva, eles não perceberam o que estavam fazendo.

“PAREM!” A Garota gritou.
Ela não levou em conta as consequências de perturbar a simetria.
Com cada oscilo, uma lágrima no caminho abria.
A realidade começou a dobrar e se separar da maneira mais perfeita.
Augustus, percebendo o que estava acontecendo, tentou escapar.

Ele voou com suas asas para o céu, mas O Guerreiro o agarrou pelas suas roupas.
Com um golpe, ele cortou as asas dele, fazendo ele cair no chão.
O Cavaleiro se lançou no Anjo, mas o Anjo caiu em uma das lágrimas.
A Garota, incapaz de fazer alguma coisa, olhou em choque.

Seu Marido havia caído no ponto absoluto da realidade.
Claudius olhou para o que ele fez com o paraíso.
A Realidade estava quebrada,
os amigos começaram a bugar,
os brinquedos estavam parando de funcionar.
Os céus começaram a se cruzar.

Ela correu para o buraco, chamando pelo seu amor.
Sua glória caiu entre as costuras da criação.
Ele não era o mesmo.

Uma mão emergiu do poço.
Sua carne se foi, e o que sobrou dele eram meros ossos.
Suas roupas que uma vez eram brancas e bonitas foram transformadas em capas pretas e limpas.
Seu cabelo dourado se foi, deixando apenas fios de carvão de fibra enegrecida.
Ele era ossos em uma capa preta, com olhos que brilhavam roxos de raiva.

Claudius olhou para o Anjo, ou pelo menos o que sobrou dele, em choque total.
Ele ganhou a guerra, mas com um preço muito alto.
O que sobrou de Augustus rastejou para fora do ponto absoluto quando o céu desmoronou em pedaços.
Augustus não existia mais.
Augustus estava morto.
Augustus foi esquecido.

O Anjo quebrado caiu na grama, suas mãos apenas ossos.
Ele tentou abrir suas asas e voar, mas não conseguiu se levantar do chão
Suas asas estavam rasgadas, queimadas, e quebradas.

Gudang olhou para seu marido, tentando segurar sua mão.
Augustus gritou em agonia, seus olhos brilhavam em um rico, violeta escuro.
Ele havia visto todo o tempo, espaço, e realidade ao mesmo tempo.
Sua mente estava dissolvida.

Augustus riu e riu enquanto ele sentia o que um dia era sua face.
Ele observou as árvores murcharem, o céu cair em pedaços, e o oceano congelar e virar gelo.
Ele olhou para O Guerreiro, que não se moveu.
Claudius tentou falar, mas não conseguiu.

Augustus voou pra frente, agarrando Claudius pela sua armadura.
Augustus voou sobre as rachaduras, caindo profundamente nos buracos da realidade.
Ele arrastou Claudius, mais e mais pra peto dos mundos de Gudang.
O fogo os engoliu, a raiva os cercou, o ódio os dominou.

Claudius pegou sua espada pela sua última vez, dando um golpe em seu amigo quebrado.
Claudius já o quebrou o suficiente e não conseguiu nem o machucar.
A espada caiu profundamente na realidade; no ponto mais baixo possível; no nadir cósmico.
Claudius caiu no rio do fundo do poço, sua espada caiu no chão.
Ele também morreu, que nem Augustus.

Augustus, olhando para o soldado caído, tinha um texto gravado na sua espada.
“AQUI DESCANSA O CAMPEÃO, O GRANDE EMPÍREO, IMPERFEITO E GLORIOSO, O PRIMEIRO DOS GUERREIROS. SEU TRABALHO FOI FEITO. VOCÊ ESTÁ A SALVO.”

Augustus, incapaz de se permanecer por inteiro, começou a transformar em nada.
Tudo ficou cinza. Tudo começou a se cobrir em sombras.
Os monstros que constantemente o atacavam, o trauma inescapável de Claudius, o calor abrasador de sua ira, o tempo de sua vida que foi cortado, a tempestade de sua ira, a perda de esperança; ele foi muito longe.
Ele realmente chegou ao seu fim.

As chamas ficaram mais e mais quente até que eles colapsaram o vazio ao redor deles.
Augustus sumiu de vista, da memória, da vida.
Claudius afundou para o fundo do oceano, para sempre com medo com sangue vermelho em suas mãos.
Gudang observou como seu céu começou a falhar como o ponto absoluto ficava veloz nos mundos.

Seus amigos ficaram destroçados e malvados,
seus brinquedos ficaram quebrados e defeituosos,
seu mundo faliu.
Vidas foram perdidas,
memórias foram apagadas,
os deuses morreram,
tudo foi perdido.

Incapaz de contrair sua melancolia, ela virou uma mera estátua.
Ela olhou e pegou um pedaço do céu, fazendo a única coisa que ela poderia ter feito.
ela esculpiu suas memórias para fora da sua cabeça
e, por causa disso, você não se lembra dessa história
você não se lembra
porque ela tenta esquecer


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